23 de jul de 2014

DUNGA E A IMPRENSA (QUANDO UM CHEFE GAULÊS ENCONTRA UM CHEFE GAULÊS,...)

Em sua apresentação, no retorno à seleção brasileira, Dunga disse que precisa melhorar seu relacionamento com as pessoas, especialmente com a imprensa.
Acho pouco, porque é unilateral. Será que a imprensa está disposta a melhorar seu relacionamento com Dunga?
Cadikim disse, ontem, que "É preciso muito amor..." (Noca da Portela) para tolerar certas perguntas da imprensa. Muitas delas vêm na forma de respostas. Não sei quais as pinimbas que a imprensa tem para com o Dunga, mas vou rememorar alguns episódios.
Quando da coletiva em que anunciou as convocações para a copa de 2010, um dos perguntadores disse, como se fosse resposta, mais ou menos o seguinte: o senhor diz que não convoca o Neymar porque ele ainda não foi testado. Quer dizer que, se o senhor fosse o técnico da seleção de 1958, não teria convocado o Pelé? Dunga respondeu pequeno, dizendo que Pelé é um gênio, etc, etc. Só que Pelé ainda não tinha diploma de gênio, quando disputou a copa de 58. A genialidade começou ali. Mas Pelé já havia sido testado e aprovado. Antes daquela convocação, já havia disputado partidas pela seleção, e, inclusive, participou da Copa Roca, jogando contra a Argentina (aí, sim, aos 16 anos), tendo marcado o gol único, que deu a vitória e a copa ao Brasil. Então, raciocinei, quando daquela pergunta (?): ou o perguntador (?) não sabia do que estava falando, já que poderia saber dessa participação de Pelé ou, se sabia, era muito pior, maldade mesmo, contando com a falta de memória ou a falta de informação alheia.
Durante a copa de 2010, no jogo contra a seleção portuguesa, narrando o jogo, Galvão Bueno comentou que, segundo informação da comissão técnica, Robinho não jogava por precaução, por cansaço muscular (coisa assim). Galvão emendou, perguntando (?): será que é só isso mesmo? Ingênuo Galvão não é. Terá sido maldade, de propósito para desgaste da comissão técnica? Por que e para que duvidar de uma informação daquela comissão?
Finalmente, no jogo Brasil x Holanda - a fatídica - seleção brasileira ganhando de 1 x 0, intervalo, e Tiago Leifert, ancorando, falou para os patrões dispensarem seus empregados, após o jogo, para poderem comemorar (vê-se que contava com a vitória e a classificação para as semi). E emendou: "não seja um Dunga!". Brincadeirinha só, para aparecer, ou marcação, mesmo? Qualquer das duas incomoda-me.
Acho e já vi gente da própria rede Globo, em programa esportivo, comentar que a Globo "pegou no pé" de Dunga, tendo um jogador, que estava sendo entrevistado (ou o próprio entrevistador, não me lembro), dito: "foi um massacre".
Não basta só o Dunga querer melhorar seu relacionamento com a imprensa. É preciso que a imprensa também se esforce, não só para relacionar-se bem com o Dunga, como, melhor ainda, relacionar-se melhor com o futebol, considerando os interesses da seleção em plano superior a de outros interesses. Lembrai-vos! Não há anjos!
Mas aproveito a declaração mais recente de Dunga, para fazer-lhe um reparo: um entrevistador chamou-lhe a atenção, dizendo: "aqui no fundo". Dunga não fez muita questão de achá-lo. Gilmar começou a indicar aonde estava o jornalista, quando Dunga falou: "Ele pensa que é bonito, que eu tenho de olhar para ele". O jornalista foi polido mas preciso: "Bem, é costume a pessoa que está sendo perguntada olhar para quem lhe fala. Pelo menos era assim até na semana passada".
Com razão o jornalista. Não sei se há alguma pinimba de Dunga com esse jornalista, ou vice-versa, ou de ambos os lados. Mas lembrei-me de uma passagem em uma aventura de Asterix, o Gaulês. O
De "Uma aventura de Asterix - O Caldeirão".
Texto: Goscinny. Ilustração: A. Uderzo.
chefe de uma aldeia vizinha chega à de Asterix. Não é bem quisto pelo chefe, Abracursix, que diz de seus motivos. Mas, solene, determina: "Mas é um chefe gaulês. E quando um chefe gaulês encontra um chefe gaulês, o protocolo tem que ser respeitado. Vamos nos preparar para recebê-lo".

É isso aí, Dunga: noblesse oblige!