1 de mai de 2012

JOGO DO BICHO TAMBÉM É CULTURA

Pode ser que a CPMI do Cachoeira consiga, pelo menos, difundir aspectos antropológicos do jogo-do-bicho, da corrupção, do envolvimento de políticos com a contravenção, etc, etc, etc...Ah! Sim! Porque há aspectos interessantes envolvendo o assunto. Vamos rememorar. Pertenço ao Quadro de Oficiais da Reserva da PMMG. Quando fazia o Curso de Formação de Oficiais, um capitão, professor de Português, falou sobre o assunto. A expressão dele, que já era de desalento, realçava mais. Dizia mais ou menos o seguinte:
Vocês vão ser oficiais da PM. Alguns irão exercer o cargo de Delegado de Polícia (hoje, estou com a macaca! se o bichim da curiosidade morder, vejam "Eu Anti-Publicitário", publicada gorinha mess). Deixemos o devorteio e voltemos ao capitão. Quando assumirem a Delegacia de Polícia, serão visitados por um chefe político local, visita de cortesia (como dizia o cabo Abreu). Conversa-vai-conversa-vem, acabará por dizer: "Olha, tenente, a cidade é pacata, acontece nada de importante. Não tem cinema, diversão nenhuma. A única diversão é um joguinho de bicho e um joguinho de baralho, inocente, no clube. Baratim, quase leite de pato, só pra dar sensação. A gente sabe que a Delegacia de Polícia luta com dificuldades financeiras, poucos recursos públicos. Então, a gente oferece uma ajudinha para o Delegado de Polícia. 'Tanto' por mês.". Aí - continuava o capitão desolado - o novo delegado redarguia: "O que?!!!". "Tanto mais x", respondia o chefe político. "Ah! Tudo bem, senhor fulano. Nada a opor". O capitão desolado continuava: Mas poderá ocorrer de algum de vocês não concordar em receber a ajudinha, e dizer para o chefe político que não toleraria a contravenção e que dispensava qualquer ajudinha, que "o jogo é um mal intolerável!", etc. O chefe político, matreira e polidamente, dizia: "O senhor tem razão, tenente! Não queremos ferir seus princípios. Respeitaremos sua decisão. Desculpe se 'lhe' ofendi. Não foi a intenção". Aí - continuava o capitão desolado - vocês encostarão a cabeça no travesseiro, imaginando que seria bom que ficasse assim, ou até imaginando que o chefe político "sabia com quem estava lidando". Ledo engano! - dizia o capitão desolado. Dois dias depois, você irá receber um radiograma (tinha disto, gente!) do Secretário de Segurança Pública, nos seguintes termos: "Agradecendo pelo bom trabalho prestado à comunidade de (nome da cidade), comunico-lhe que, em face da nomeação de outro Delegado de Polícia, estamos dispensando seus préstimos. Atenciosamente,...".
Vi isto acontecer. Não poucas vezes. E, como também já disse, vi uma cidade receber um delegado que, por motivos políticos, recebera a incumbência de fechar o jogo-do-bicho ali. Enquanto isto, em uma outra cidade, distante cerca de sessenta quilômetros, o jogo-do-bicho corria solto. Como correra solto, até então, naquela cidade.
É claro que uma atividade, que mistura legalidade com ilegalidade, ética com falta de ética, desenvolvimento com atraso, teria de gerar referências folclóricas.
Contava-se que o Delegado de Polícia mandava o cabo do destacamento fazer um jogo para ele. Todos os dias, jogava Cr$10,00 no bicho que desse. Todas as tardes, embolsava o prêmio que o mesmo cabo lhe ia levar. O tempo foi passando, até que o bicheiro abordou o Delegado (não sei se o chamou de Doutor ou de Tenente, ou outro posto, o folclorista não fala): O senhor desculpe, mas o seu prêmio está ficando muito caro. Olha que pagar primeiro prêmio todos os dias, em aposta de Cr$25,00 pode até quebrar a banca. O Delegado: Cr$25,00? Mas eu só jogo Cr$10,00 por dia, como combinamos! Conclusão: o cabo estava jogando mais Cr$15,00 para ele mesmo.
Corrupção também é cultura!

Foto (Banca de jogo do bicho no Rio de Janeiro, à luz do dia, em 1917: tema abordado por grandes escritores): grabois.org
http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=54&id_noticia=7998