16 de abr de 2012

QUANDO IMPERA A PAIXÃO


Os torcedores do Boca Juniors também marcam presença no Rio
Foto: AP
Foto apenas ilustrativas (como é comum
em alguns comerciais).
Ontem, amanheci pensando sobre a paixão por um time de futebol e os comportamentos que ela desencadeia. Penso que não é paixão pelo futebol, nem por um clube, e sim pelo time, mesmo. O clube, as outras modalidades esportivas, etc., são caronas que pegam no futebol.
Lembrei-me, então, de que, quando o estádio de Belo Horizonte era o Independência, fui a uma final de campeonato, jogando Atlético e Democrata (de Sete Lagoas). A diferença entre a torcida do Atlético, e as dos demais times, em Belo Horizonte, era descomunal. A torcida do Atlético ocupava cerca de dois terços do estádio. O terço restante ficava para as torcidas dos outros times. Chamavam o conjunto de "coligação". Era a torcida do Galo contra a "coligação". Atleticano moderado, fui, com meu irmão, cruzeirense, para a "coligação". O Atlético vencia por 2 x 0, quando Paulo Valentim partiu para a área, conduzindo a bola. Braúna, zagueiro do Democrata, um guarda-roupa, fez uma falta violenta no Paulinho. Paulo Valentim revidou na hora. O Mário Vianna apitou e apontou para o vestiário do Atlético - expulsou o Paulinho. Imediatamente, um torcedor (não sei se cruzeirense ou "coligação") gritou, plenos pulmões (como gostam os puristas): "Muito bem, Mário Vianna! Expulsa esse cavalo!". Mas, enquanto o Mário Vianna apitava e fazia o gesto, e o torcedor gritava, o Braúna - que não era nenhum santo - tacou o pé no Paulinho. Mário Vianna não titubeou: apito fortíssimo e braço apontado para o vestiário do Democrata: Braúna fora! Tudo muito rápido, mais do que enquanto o diabo esfrega um olho (nunca entendi esta metáfora; o diabo esfrega o olho muito depressa? pra não queimar?...) O mesmo torcedor virou-se, imediatamente, e lamentou: "Ah! O Mario Vianna não devia ter feito isto não! Devia deixar os dois em campo!". Foi, para mim - rapaz, ainda - uma bela lição de comportamentos sob influência da paixão.
Pois não é que, assistindo, ontem, ao jogo Tupi x Atlético, em Juiz de fora, assisti a uma cena que me fez pensar sobre essa lição? Jogo muito corrido, no primeiro tempo, 0x0 (ôxo, como dizia o Walter Abrão). Corrido, também, até a metade do segundo tempo. Ainda empatado. Aí, o resultado passou a interessar muito aos dois. Com o empate, o Atlético ficava em primeiro lugar, mesmo Se o Cruzeiro vencesse o Uberaba (o Cruzeiro vencia e ficaria no primeiro lugar, se o Galo perdesse); o Tupi ficava com a quarta vaga para as finais, se o resultado do jogo do Nacional ficasse como estava. Foi aquela leréia! O Atlético, na saída de bola, ficava atravessando bolas em sua intermediária, sem arriscar o ataque. O Tupi ficava cercando, de longe, sem dar combate. Tudo para ficar do jeito que estava. As torcidas começaram a encrencar. Alguns torcedores, vendo que os times não iriam sair daquela água-morna, foram saindo, lá pelos trinta minutos. A maioria começou a vaiar, tanto um como o outro time. Queriam jogo.
Foi aí que me lembrei das lembranças da manhã, e pensei "cá consigo" (como dizia o matuto lá do Passa Quatro): será que se o Atlético arriscar um ataque, levar um contra-ataque e um gol, os que estão vaiando não irão dizer que deveriam ter ficado só trocando bolas? E será que, se o Tupi resolver "partir para cima", nas trocas de bola do Atlético, tentando tomá-la, abrir a defesa e acabar levando um gol, os torcedores não irão dizer que os jogadores deveriam ter ficado só cercando?

Foto: O Globo Esportes.
http://oglobo.globo.com/esportes/121212-dia-do-torcedor-7022035
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